terça-feira, 1 de novembro de 2011

EPICURO: Sua Teologia, posição na história e uma crítica à sua Doutrina. (Epicurus: Theology, position in history and critical of their doctrine.)

Epicuro Epicurus

Título: EPICURO: Sua Teologia, posição na história e uma crítica à sua Doutrina. 

Autor: FABIO GOULART

PORTO ALEGRE, 2006.

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ABSTRACT

                It is a short introductory text to the philosophy of the ancient Greek philosopher Epicurus. The text is limited to the study of his theology, religion, ethics, and is followed by a critique in end.
             Keywords: Epicurus, Theology, Doctrine.

RESUMO

                Trata-se de um breve texto introdutório à filosofia do filósofo da Grécia antiga Epicuro. O texto se limita ao estudo de sua teologia, religião, ética e é seguido por uma crítica no final.
Palavras Chaves: Epicuro, Teologia, Doutrina.

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1.       A Teologia de Epicuro

1.1 Obras e fragmentos que nos restaram.

                Segundo Diógenes de Laércio, dentre as mais de trezentas obras de Epicuro, consta uma sobre os deuses (Perí Theoun), porém esta obra não chegou até nosso tempo. O maior número de referências encontramos na carta a Meneceu; também no muro de Enoanda encontram-se frases epicuristas de cunho teológico. Valiosos depoimentos relativos à teologia epicuréia devemo-los a Lucrécio e a Cicero. Um excelente estudo sobre a teologia foi escrito por Festugiére em Épicure es sés dieux sieux.

1.2 A Religião

                Epicurismo não significa ateísmo em sctrcto sensu. Epicuro era um antiteísta, pois fazia oposição à religião popular (os antigos deuses gregos) e a religião astral (são os signos do zodíaco que muita gente crê até hoje). Ao contrário das religiões da época, as divindades eram para Epicuro criaturas sem inveja, sem maldade, sem desejo, sem vinganças, etc. Ele também não acreditava em destino ou qualquer tipo de vontade divina; para este filósofo os deuses não se intrometem no mundo físico. Por fim, em seus textos às vezes ele fala em divindades (theoí) e em outras em Deus no singular (Theós), assim sendo não podemos afirmar que ele era monoteísta ou politeísta. Sua visão é muito mais próxima ao que hoje chamamos de Deísmo. 

1.3 Como eram os deuses para Epicuro.

                “Deus é um ser vivo, imortal, feliz... do mesmo modo que o conceito universal de ser divino acha-se gravado em nós...” As divindades vivem na mais completa tranquilidade, delas provem micros simulacros (eídola) que os tornam conhecidos como são. Os deuses do povo , por outo lado, eram ficções eivadas de imagens distorcidas, errôneas, motivo por que são tidas como vingadoras.
                Se dos deuses de Epicuro desprende-se átomos finíssimos, e pelos poros penetram no espírito humano, conclui-se que também eles possuem corpo, composto de matéria sutilíssima. São deuses icônicos de caráter “sui generis”. Epicuro acreditava nesses deuses por três motivos: 1° Na infância em Samos, se encheu das mais diversas informações religiosas; 2° Inteligente percebia o conceito  universal no tocante à aceitação das divindades; 3° Achava logicamente necessários os deuses para fundamentar uma religião que ao mesmo tempo representasse reverencia e culto à perfeição.

1.4 Seu Argumento ontológico

                Cícero referindo-se a Epicuro, cujos escritos bem conhecia, confirma em “De beneficiciis, IV, 193,” que o filho de Samos admitia a existência dos deuses como logicamente necessárias, porque é mister a existência de alguma natureza superior a qual nada pode superar. São Os deuses uma exigência do ideal da perfeição humana. ( eudamonía )

1.5 A Residência dos deuses e a imortalidade

                Existem mundos infinitos segundo a física de Epicuro, por haver idem um número infinito de átomos. Os deuses viveriam nos espaços que separam entre si os mundos. Tais espaços denominam-se “intermundos” (metakosmía). Os deuses teriam uma forma semelhante a humana, só que perfeita e plenamente feliz. Mesmo feitos de átomos, os deuses não estão sujeitos a mortalidade, pois a “eídola” emite sem cessar átomos que são substituídos por outros eternamente. “Por conseguinte, não são afetados pela dissolução dos mundos que ocorre continuamente ao redor deles.” Deus mão se preocupa com o mundo, mas fica retirado isoladamente, no gozo de seu bem-estar. A felicidade divina deve ser almejada por todos homens, pois é plena...assim pensava Epicuro.

2. Epicuro na História

O epicurismo durou pouco mais de meio milênio, já sua presença marcante durou até o séc III depois de Cristo. A concepção antropológica relativamente à “hedoné” e a busca a ataraxia se mostraram inapagáveis. Tanto é que em nossos dias o mestre do jardim ainda é lembrado e a busca da felicidade por meio de seus métodos ainda é praticada. A doutrina epicuréia, não acabou no séc. III  depois de cristo, ela apenas se adaptou, pois pouco antes no séc. I d.C. encontrou em meio aos romanos simpatizantes, um abrigo. Titus Lucretius Carus (95-55 a.C.) este com sua obra “De rerum natura”, escrita em hexâmetros difundiu na sua época, e depois em todo ocidente , a doutrina de Epicuro. O poema de Lucrécio é considerado o maior poema filosófico de toda história da humanidade. Cícero, embora inclinado à Nova Academia, isto é, ao probalismo, chegou a conhecer quando jovem as ideias de Epicuro, através de Fedro. Adulto, combateu Epicuro, mas continuou a apreciá-lo como homem. A obra de Lucrécio exerceu influxo sobre Horácio o que o levou a sua célebre frase “carpe diem”. O autor de “Odes Virgílio” também por muito tempo seguiu o epicurismo. Também Sêneca em seu epistolário e em suas máximas, embora professasse o estoicismo, demonstrava profunda admiração pelos ensinamentos de virtude e de moralidade de Epicuro.

2.1 Estoicismo e Epicurismo

                Ambos esforçam-se por proporcionar uma filosofia de vida, seus ideais no campo da ética, realmente não estavam muito distantes um do outro. Os estoicos colimavam como objetivo a autossuficiência a qual devia ser atingida por uma vida consentânea com a natureza, os epicureus ,miravam a tranquilidade, a ataraxia.  A diferença encontramos na base das doutrinas; os estoicos acreditavam numa alma universal regulando todas as coisas; eram panteístas e diziam que uma centelha dessa alma, na vida de cada individuo, constituía ao mesmo tempo toda inspiração e sabedoria que o home pode ter.
                Como já foi dito, os epicuristas pensavam diferente. Tinham uma visão totalmente materialista do universo. Os deuses existem, mas isolados nos intermundos, sem contato e sem relação com o mundo físico para não turbarem a sua bem-aventurança.  A alma é composta de átomos. Nos séculos II e III d.C. temos figuras que mostram sua simpatia pelo filósofo do jardim. Diógnes de Enoanda e Diógenes Laércio o qual nas suas biografias dos filósofos dedica o livro décimo inteiro de sua obra a Epicuro.
O epicurismo sofre com as lutas com os estoicos e com o crescimento do cristianismo. Timócrates um discípulo dissidente espalhou graves calúnias sobre a doutrina do mestre do jardim contribuindo para fortalecer os antiepicureus e o gradativo desaparecimento dos seguidores por volta do séc. IV d.C. Nos tempos de Santo Agostinho (354-430 d.C.) os epicuristas quando citados, os são anedoticamente, somente na Renascença Epicuro começa a ser reabilitado, diversos personagens contribuíram pra isso. Poggio valorizou os textos carolíngios multiplicando-os com várias cópias na metade so século quinze. Posteriormente temos diacronicamente como admiradores críticos de Epicuro: Bayle. La Mettrie, Vico, Voltaire, Kant, Marx, Nietzsche.

3. Crítica a Epicuro

                Para Epicuro filosofia e vida são inseparáveis. Ele centra a sua atenção no ser humano como personalidade que porta um nome. Olha-o na sua singularidade, na sua experiência existencial. Empenha-se em construir uma singularidade, na sua amizade, na troca de experiência existencial. Empenha-se em construir uma filosofia de vida baseada na amizade, na troca de experiências, em reflexões, em celebrações ritualísticas de caráter religioso, na ataraxia, em máximas que servem de leis e motivações para a vida cotidiana. Embora discípulo de Demócrito, torna-se autônomo em sua maneira de conceber o mundo. Seu modo de viver e pensar expressa a busca da felicidade em seu mais alto grau. Em seu jardim todos, sem exclusão de mulheres e escravos ( algo incomum na época), podiam participar. Sua filosofia era a filosofia da liberdade, ou seja, como podemos estudar em tetrafármaco, buscava libertar os homens dos grilhões de superstição, do destino e dos deuses. Sua doutrina arraigada na realidade, na vida cotidiana, nas relações inter-humanas, na busca da felicidade neste mundo dá-nos uma visão de um humanismo imamentista, exclui qualquer transcendência e se mostra niilista.
                Em sua doutrina podemos verificar aspectos negativos que apresentam fortes erros em sua gnosiologia e física. Isso porque sua obra não apresentava argumentos convincentes. Em toda sua doutrina vemos em sua ética seu ponto de vista mais forte, a principal crítica feita com relação a elas se dá sob o aspecto do não envolvimento epicureu na vida da polis, nas discussões políticas da cidade. Quanto ao problema da liberdade e da responsabilidade o qual não deu solução e sua maior falha para muitos foi ter feito do Bem a identificação com a emancipação de qualquer obrigação. Quanto a religião e teologia. Epicuro em seu deísmo representou para a sociedade de sua época o que foi o iluminismo na modernidade.

             REFERÊNCIAS

ULLMAN, R. Aloysio. Epicuro: O Filósofo da Alegria. EDPUCRS. Porto Alegre 2006.

DOWNLOADS DE TRABALHOS, ARTIGOS, e-BOOKS, MÚSICAS E VÍDEOS FILOSÓFICOS

Olá pessoal! Gostaria de apresentar a nova seção de downloads deste blog! Agora além de poder ler e compartilhar o precioso conhecimento que posto aqui nesta página...você poderá também baixar arquivos, textos, artigos, músicas, filmes e tudo mais que aos poucos vou disponibilizar pra todos que pisarem neste asfalto virtual !!!

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Caso tenha alguma dificuldade...favor postar nos comentários.

att

Fabio Goulart - Fabiogt.co.cc

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MARTIN HEIDEGGER: O confronto Sistemático-Crítico com a história da filosofia.( The systematic and critical confrontation with history of philosophy)

filosofo martin heidegger

Título: MARTIN HEIDEGGER: O confronto Sistemático-Crítico com a história da filosofia.

Autor: FABIO GOULART

PORTO ALEGRE, 2010.
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ABSTRACT
Proposing a method capable of overcoming the dualism common in the history of philosophy between subject and object, Heidegger stands in a position critical-systematic comparison with the history of philosophy. His central idea is that the veiling and unveiling of being would not be just at the thought of each thinker, but in the entire history of philosophy. So he ends up sinking into a tremendous "problem of language." A true "walking a tightrope" between the analytical and the philosophy that makes dialysis complicated and incomplete.
             Keywords: Dasein, Question of Being, History of philosophy.

RESUMO
Propondo um método capaz de superar a o dualismo comum na história da filosofia entre sujeito e objeto , Heidegger se coloca em uma posição de confronto sistemático-crítico com a história da filosofia. Sua ideia central é a de que o velamento e desvelamento do ser não estaria apenas no pensamento de cada pensador, mas sim em toda história da filosofia. Para isso ele acaba se afundando em um tremendo “problema de linguagem”. Um verdadeiro “andar na corda bamba” entre o analítico e o dialítico que torna sua filosofia complicada e incompleta.
Palavras Chaves: Dasein, Questão do Ser, História da filosofia.

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                Quando escolhi o curso de filosofia e consequentemente a carreira de filósofo como objetivo de vida, não fiz isso com a intenção de me tornar um grade filósofo ou de calar as perguntas mais existenciais da minha mente. Fiz esta escolha devido a minha crença particular de que somente através da filosofia é possível existir valor e significância para as coisas e para a vida.
                Dentre todas as dúvidas habitantes em minha cabeça apenas uma era existencialmente importante a ponto de “ter que ser necessariamente respondida” pela filosofia: “Por que existe algo ao invés de nada?”
                Ao tentar expressar e compreender o Dasein Heidegger é, sem dúvida, o filósofo que mais se aproxima de minha crise existencial. Propondo um método capaz de superar a o dualismo comum na história da filosofia entre sujeito e objeto , ele se coloca em uma posição de confronto sistemático-crítico com a história da filosofia. Em palavras mais simples: A história da filosofia precisava ser repensada através do método heideggeriano para que seu método tivesse sentido e desvelasse suas questões.
                A ideia central do método heideggeriano é a de velamento e desvelamento oriunda do termo grego aléteia, que significa exatamente velamento e desvelamento. Ela parece ser extremamente simples, mas é o “carro chefe” do movimento de totalização buscado por Heidegger.
                Este método permite captar em um único movimento o processo do pensamento, derrubando o dualismo “método-objeto”. Isso o levaria a uma visão mais transparente da história da filosofia e suas questões.
                Por outro lado, A tradição filosófica nos traz dois modelos explicar a história da filosofia:
                1° O Lógico-analítico que é sistemático, crítico e está ligado à problemas da linguagem;
                2° O Especulativo-dialético baseado no sistema tese, antítese e síntese.
                O método analítico além de não estrar preocupado com “a questão mesma” mas sim com o sistema de predicadores que determina a lógica a lógica do texto, não atinge a totalidade desejada por Heidegger. Diríamos que não apenas o método permanece exterior a coisa, mas é exatamente por causa do método  que a própria relação da linguagem com a coisa é exterior.
                Diferentemente disso, o modelo especulativo-dialético é totalizador. Vê a história da filosofia como um todo onde cada filósofo se move e está ligado à “questão mesma” de cada texto. Diríamos que para Heidegger dialogar significa “penetrar na força e no âmbito do que foi dito pelos primeiros filósofos”. Para ele a procura não está no que foi dito, mas em algo impensado. Por fim, caso se adote uma linguagem muito especulativa, o modelo dialético de método pode se tornar complexo e obscuro.
                Com isso Heidegger descobre uma radicalização progressiva do esquecimento do ser na história da filosofia. Faz-se necessário buscarmos um caminho que revele o jogo de luz e sombras da questão do ser.
                Para isso o filósofo não procura a história da filosofia para ampliar um sistema filosófico particular. Ele á procura de maneira sistemática, crescendo organicamente dentro da tensão que sua visão totalizadora gera na história do pensamento.
                A grande novidade de Heidegger foi mostrar que a estrutura polar “velamento-desvelamento” não está apenas no pensamento de cada pensador, mas sim em toda história da metafísica ocidental.
                O problema que surge é que ele também faz parte destas história, não podendo expor seu pensamento como se não fizesse. Assim sua obra mergulha em uma constante tensão entre o que está sendo dito e a maneira de como é dito.
                Por isso ele busca uma linguagem especulativa e que “ao ser especulativa” não deixe de ser suficientemente crítica e autocrítica. Busca o controle da linguagem sem cair numa relação puramente exterior as questões fundamentais do texto.
                Mas como fundir a linguagem com a questão fundamental do texto sem perder o controle da linguagem?
                Parece que ele não conseguiu responder e deixou esta questão em aberto.
                Em sua obras Heidegger constrói uma linguagem própria, uma verdadeira “teia de conceitos”, pois cada uma de suas palavras só tem o sentido desejado quando amarrada as demais.  Ele abusa dos recursos que a etimologia oferece para gerar tenção nas palavras; e para isso empurrá-las cada vez mais na direção da estrutura ambígua de velamento e desvelamento desejada.   
                Julgo que ao buscar um sistema totalizador especulativo e crítico onde a questão do ser se vela e desvela na história da filosofia, ele acaba se afundando em um tremendo “problema de linguagem”... Um verdadeiro “andar na corda bamba” entre o analítico e o dialético, onde a linguagem é um fardo pesado tentando derrubar o filósofo a qualquer momento. Por fim, o resultado é uma filosofia desnecessariamente complicada de ser entendida e incompleta no sentido de que não respondeu muitas de suas questões fundamentais acerca do ser.
andando na corda bamba lua

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Obs.: Trabalho feito a partir das aulas do professor Dr. Ernildo Stein. Um dos maiores nomes quando o assunto é Martin Heidegger.  

Mistério capitalista ( Mystery capitalist )

pra copa tem dinheiro e pro povo não
"To World Cup have several billion dollars, but for schools and public hospitals do not have anything?!?"

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

ENSAIO SOBRE O DIVINO NO MUNDO VIRTUAL (ESSAY ON THE DIVINE IN THE VIRTUAL WORLD)


Título: ENSAIO SOBRE O DIVINO NO MUNDO VIRTUAL


Autor: FABIO GOULART

PORTO ALEGRE, 2011.
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ABSTRACT

I was surfing the internet and trying to recognize in myself that while I was sailing.There I met, I found a different me. In this work I decided to wander over that other and I like that I relate to the divine. Were a test, my only intention is to explore these ideasin my head scrambled in light of studies in philosophy of religion.

             Keywords: God, Internet, Virtual world.

RESUMO

Estava eu navegando na internet e tentando me reconhecer como eu mesmo enquanto eu era aquele que navegava. Não me encontrei, encontrei um eu diferente. Neste trabalho resolvi devanear sobre esse outro eu e como esse eu se relaciona com o divino. Tratasse de um ensaio, minha única pretensão é de explorar essas ideias embaralhadas na minha cabeça na luz dos estudos de filosofia da religião.  

Palavras Chaves: Deus, Internet, Mundo virtual. 

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1. A Suposta Necessidade de Uma Filosofia Virtual


De fato cada vez mais pessoas utilizam a internet, como também é fato que cada vez as pessoas utilizam mais a internet. Não é nenhum exagero dizer que a internet definitivamente faz parte de nossas vidas e que muitos de nós não viveriam sem ela. Com isso não estou apenas me referindo a suas funcionalidades e praticidades no dia-a-dia. Quase todas as empresas de médio e grande porte atuais utilizam a internet para se comunicar, armazenar e trocar informações internas e externas, afinal a internet traz velocidade e segurança para isso. Se de uma hora pra outra deixasse de existir, ou se ela nunca tivesse existido, certamente as perdas seriam gigantes, mas muitas destas empresas continuariam existindo, apenas teriam que encontrar novas formas de fazer o que é feito on-line no mundo em que vivemos.
O “problema da internet” começa a ganhar dimensão interessante quando levamos em conta que milhões de empresas hoje só existem devido à internet. Esta rede mundial de computadores permitiu a criação de diversos novos paradigmas comerciais e hoje é fato que não somente mais de 20% da população mundial está conectada a internet, como também um numero ainda maior só consegue por o alimento na mesa de sua casa devido a existência da mesma. Talvez eu esteja exagerando nesta última frase, mas o fato é que o mundo só é com é hoje devido à existência da internet, se ela não existisse o mundo evidentemente seria muito diferente do que conhecemos. Julgo que desde a metade dos anos 1990 começamos a viver a era de internet.
Com isso estou me atrevendo dizer que nossa vida material já é refém de nossa vida virtual. Se desde a Grécia antiga os filósofos como Platão e Aristóteles tentavam entender o suposto dualismo do homem dividido entre material e imaterial, entre corpo e alma, entre forma e matéria. Julgo que é chagada a hora de se filosofar sobre o dualismo do homem material e o homem virtual. Não há conciliação neste ponto, somente diálogo, o eu material termina onde o eu virtual começa, as relações humanas seus sentidos e significados estão afetados para sempre. Meu eu virtual habita o mundo virtual. Ao contrario da minha mente ou de uma suposta alma, meu eu virtual não tem nenhuma relação com meu corpo feito de carne que um dia apodrecerá e será comida para as larvas. O corpo material do meu eu virtual são os vários servidores espalhados pelo mundo, ele é imortal enquanto houver backups, habita um tempo e espaço diferentes dos nossos.
Fig. 1: Nesta figura vemos um esquema que revela uma fração da internet, suas estruturas e conexões. A sensação é a mesma de quando olhamos um esquema feito pela NASA para mostrar uma fração do universo material e suas galáxias.

Ao usar este conceito de “eu virtual” estou dizendo que são necessárias novas noções de antropologia filosófica, pois o ser humano e suas relações precisam também ser pensados dentro da dimensão virtual. Mas não para por ai, a velha metafísica precisa também ser re-pensada, velhos conceitos como forma, conteúdo, substância, sujeito, objeto tem um novo sentido neste universo que é em si e por si evidentemente metafísico, afinal os códigos binários (1010001100110) que estão por trás de sua existência são evidentemente metafísicos (no sentido de não serem físicos ou materiais). Parece-me que a lógica e epistemologia também precisam evoluir neste universo e julgo que aqui encontraram recursos que permitiram a resolução de diversos problemas crucias, afinal toda linguagem de programação que permite a existência metafísica do virtual é puramente lógica. Nem mesmo a moral e a ética escapam do virtual a partir do momento que é possível que as pessoas materiais interajam, se organizem, gerem atividades sociais que só são possíveis através do universo virtual graças as suas redes sociais, como Facebook, MySpace, Orkut, Twitter, etc; está se criando também uma nova forma de socialização e interação, surge a necessidade de pensarmos em novas condutas éticas e julgamentos morais. Estamos vendo o povo se “se armar” no universo virtual e derrubar velhos monarcas e ditadores da realidade carnal, a política também está se reestruturando.


Fig.2: 04 de Abril de 2011. O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama aperta a mão do jovem criador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, na sede da rede social em Palo Alto (EUA). No mesmo dia os conflitos no mundo árabe que se organizam a partir das redes sociais se intensificavam.


Estou exagerando ao falar em “eu virtual”? Tudo que eu escrevi poderia ser usado apenas para mostrar que a internet é uma bela ferramenta para o uso em nossas vidas, mas não que existe um “eu virtual”. De fato estou exagerando, mas acredito que é somente a partir da percepção do absurdo é que aquilo que era óbvio, mas estava oculto, começa a se revelar.
Mesmo o dinheiro, um velho símbolo do poder materialista, se virtualizou. Não tenho mais dinheiro tenho um cartão de débito, quando tiro meu extrato e está descrito lá “R$1000,00”, estes dígitos não se referem a uma caixinha cheia de notinhas escrita meu nome, estes números referem ao meu virtual poder aquisitivo. Se todos fossem ao mesmo tempo ao seu respectivo banco sacar seu saldo, adivinhem o que iria acontecer... não haveria a correspondência real de todo esse dinheiro, o sistema monetário mundial entraria em falência instantânea, isso pois dinheiro é só um pedaço de papel ou metal, seu valor está todo em seu virtual poder aquisitivo.
Por fim necessitamos filosofar acerca do eu virtual porque o ser humano está evoluindo nesta dimensão muito mais do que nas outras (entendo como outras: animal, racional e espiritual). Se não atentarmos para esta dimensão com a devida atenção, é provável que ela se erga falicamente em nossas vidas e engulas as demais. Se isso acontecer o eu virtual, que neste momento ainda pode ser encarado como uma mera representação do eu racional e animal, irá aos poucos se tornar o “eu real”(aquele “eu” que é majoritário em nossas vidas) e nossa vida material se tornará mera ferramenta utilizada para atender as vontades do eu virtual.

2. As instituições e o Virtual
           
            O ser humano está se virtualizando, o eu virtual está tomando forma é poder, as nossas relações são cada vez mais virtuais. Sabendo disso, fica evidente que as instituições também estão se tornando virtuais.
Basicamente junto com a popularização da internet no final dos anos 1990 surgiram os primeiros e-commerce, no geral eram ferramentas de grandes lojas existentes no mundo material que viam na internet um grande mercado em potencial. Quase todas as grandes empresas que entraram na internet, estão lá até hoje, o que nos interessa é que em pouco tempo muitas pequenas e médias empresas que não teriam a menor chance de competir contra gigantes reais começaram a crescer espantosamente no mundo virtual. Já há algum tempo, existem diversas empresas que são 100% digitais, não existe no mundo físico, são apenas pequenas unidades especificas que coordenam centros de distribuição ou ainda, que fazem a mediação de negócios entre seus usuários. Basta entrar no http://www.mercadolivre.com.br/ que você entenderá a que nível de vitualização já podemos chegar no comércio de mercadorias. De encontro com o que foi dito antes, milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente da internet para viver, observem o aumento do número de motoboys em nossas cidades e pensem naquilo que eles fazem com seus salários, pensem na compra das motos, na gasolina, nas roupas, etc... independente daquilo que você atualmente faz, é basicamente certo que tem ligação com internet e que em algum momento do processo que mantém aquilo que você “é” existe a virtualização no processo.
            As escolas e as universidades estão se virtualizando. Hoje é muito difícil encontrarmos alguma instituição de ensino superior no Brasil que não tenha alguma espécie de “ambiente virtual” no estilo Moodle. Estava conversando recentemente com o professor Erico João Hammes da faculdade de teologia da PUCRS e chegamos a conclusão que essa virtualização do processo de educação é uma conseqüência lógica da virtualização do ser e das relações humanas. Julgamos que por mais que possa parecer contrários aos padrões atualmente aceitos como bons para uma educação de qualidade, cada vez mais as pessoas tem menos tempo para se relacionarem fisicamente, então a relação virtual começa a ser mais interessante, pois o nosso tempo é melhor administrado quando estamos agindo através de nosso eu virtual. Com isso é provável que aquele que “aprende à distância” aprenda com mais autonomia, e se não com mais qualidade, pelo menos com mais prazer e melhor aproveitamento de seu concorrido tempo.
            Mesmo a família já não é mais a mesma. Ela tende cada vez mais a se virtualizar. Namoros e casamentos começam e terminam na internet, quem utiliza as redes sociais como Twitter, Orkut e Facebook sabe bem o que estou falando[1]. O pai que quer conhecer verdadeiramente um filho precisa esta on-line em todas as redes de sua criança, caso contrário não saberá nada de sua vida, as crianças de hoje em dia são muito mais ativas no ambiente virtual do que no mundo material, isso porque lá quebram mais facilmente barreiras como a timidez e o preconceito contra sua jovem idade. Já existem famílias onde cada um tem o seu PC e costumam a se relacionar muito mais enquanto seres virtuais do que como seres materiais. Não julgo que isso seja ruim, apenas diferente. Falta o calor humano? Quando o outro está do outro lado da sala, sim, falta calor, mas quando o outro está do outro lado do mundo a relação é muito mais próxima do que quando não havia a virtualização.
            Em suma, a tendência é que nos próximos anos todas as instituições começarão a dar mais ênfase a sua existência virtual do que em sua existência material, isso porque o próprio ser humano fará isso consigo. Quando? Não posso afirmar, mas o fato é que cada vez mais estou mais disponível on-line do que pessoalmente.  

3.As Igrejas e o Virtual

            Como ficam as igrejas nesse processo? Não sei, mas posso observar o que está acontecendo agora...
            “Que tal um site de orações que está em comunhão com Deus?” http://www.bahai.org.br/oracao/
            “Faça seu pedido de oração, e uma equipe de intercessores em todo o Brasil e exterior estará constantemente orando por todos pedidos de oração feitos através desta página.” http://www.jesusvoltara.com.br/pedidos.htm
            “Pra quê ficar perdido, converse com um pastor on-line”http://www.teologia.org.br/pastor.htm
            “Congregue nas redes sócias! Comunidades no Orkut oferecem serviço de oração 24 horas online e reúnem testemunhos” http://www.orkut.etc.br/portal/oracao_orkut
            Até ai tudo bem, se as pessoas estão se relacionado cada vez mais entre elas através do ambiente virtual, não poderíamos pensar que elas também não passariam “a olhar para os céus” através da tela de seus computadores e dispositivos móveis. Não é mais necessário guardar o sábado ou o domingo para o Senhor, seria tolice, afinal esses são os dias de maior movimento, precisamos ganhar dinheiro. Posso assistir ao programa religioso de quase todas as religiões de segunda a sexta na televisão e caso não tenha tempo, acesso a internet e corro atrás do último culto. Certa vez um amigo me disse “não ter tempo não é mais uma desculpa para não nos mantermos juntos de Deus e de nossos irmãos”.
                                           Fig.3.: Igreja Show da Fé, um sucesso da TV brasileira.

            O problema que a religião e as igrejas terão impreterivelmente de resolver dentro desta nova perspectiva virtualizada é aquilo que chamo de “fenômeno pós ou neo religioso”. Existem muitas informações de cunho religioso na internet, aquele que nunca recebeu e repassou alguma corrente milagrosa no seu e-mail que atire a primeira pedra. Evidente que tais informações foram postadas pelos mais diversos tipos de pessoas com as mais variadas intenções. Todo mundo pode postar e comentar quaisquer coisas sobre qualquer coisa no ambiente on-line. Aquilo que foi postado pode tomar tal dimensão que antes que podermos imaginar: se torna “religioso”. Juntando tudo isso, na internet cada individuo pode se focar naquilo que lhe interessa, pode fazer uma grande “colcha de retalhos” com os fragmentos religiosos dos outros e o resultado prático são seitas estranhas ou atos absurdos como o caso Wellington Menezes, afinal toda religião carrega consigo uma série de pressupostos que dão fundamentos existenciais para os atos de seus adeptos, não é necessário fazer uma longa digressão para nos darmos conta do tamanho da espécie de “poder” que um indivíduo pode pensar ter no momento que configura sua própria religião através da consciência oriunda de seu eu virtual.
Fig.4.: Com base em fragmentos de varias religiões Wellington Menezes planejou seu ato e entrou armado em uma escola assassinando diversas crianças em nome de sua vingança. Em suma ele criou uma fundamentação religiosa que não somente permitiu tal ato deliberado, como também dentro de sua crença pós\neo religiosa: “ele fez o era certo”.

4.O Divino e o Virtual

            Desde já antecipo: O eu virtual é o indivíduo elevado ao seu nível máximo.
            O homem está lá, as instituições estão lá, as igrejas estão lá... E Deus? Há lugar para o divino no ambiente virtual?
            Epicuro, na longínqua Grécia antiga, era um materialista convicto, mas não era ateu. Devido a isso ele se viu num problema de ordem teológica: como seria possível a existência de seres superiores e divinos num universo composto por um número finito de pequenos átomos? A solução encontrada pelo mestre dos jardins para este problema foi ingenuamente simples, Deus estaria num espaço entre os diversos universos existentes. Espalhando seus átomos para tudo aquilo que existe, mas também recebendo os átomos de todo aquilo que existe. Assim sendo, Deus permanece eterno e feliz, mantedor das sabedorias universais, porém sem se envolver com nada que ocorrem nos universos, afinal ele não está em nenhuma das dimensões[1].
            Tal como o filósofo da alegria eu me atrevo a dizer: Deus não está na internet, Ele não poderá ser encontrado no meio dos bits e bytes que abastecem a existência virtual. Neste universo ele não é e não pode ser o criador ou o ordenador. Deus não se faz presente nessa realidade. O Deus virtual não existe.
            Para Nietzsche Deus é invenção da debilidade humana e a negação de sua existência seria a superação do próprio ser humano. O que teria dito ele se pudesse desfrutar de um universo no qual Deus não faz parte e onde o individuo pode navegar livremente fazendo valer seus desejos mais bizarros como “ser outra pessoa”?
            Enquanto eu virtual o homem é livre, pois para este eu, Deus está morto, é como se Ele nunca tivesse existido. Mas o que dizer o que dizer das leis e regras de conduta que limitam os atos on-line? E sobre a religiosidade digital citada no capitulo anterior? Gostaria de fazer algumas considerações a respeito.      
            Tal como para Nietzsche a religião é a autodilapidação institucionalizada do homem (ZILLES, p.166), julgo que tais movimentos religiosos no ambiente virtual também o são. Só há uma coisa mais ridícula do que receber uma corrente ameaçadora no e-mail... é repassar esta corrente para um número “X” de pessoas com medo que alguma maldição divina possa recair sobre sua cabeça. Diria eu que todo e qualquer tipo de verdade passa longe destas manifestações pós \ neo religiosas presentes no ambiente virtual. Tentar trazer as religiões para o ambiente virtual é como tentar vestir uma velha senhora de oitenta anos com as roupas justas e sensuais de uma moça de dezessete anos. Neste sentido, uma reforma racional teológica seria muito mais interessante do que um Twitter do Papa[2].
            A tentativa de trazer o sagrado para o virtual se apóia no ressentimento de pessoas fracas que quando se encontram desamparadas num ambiente livre de pressões divinas, sem saber o que fazer, negam essa realidade e trazem a sombra de Deus para dentro do ambiente virtual. Esta sombra oculta a possibilidade de verdade, oprime os fortes e falsamente ampara os fracos, pois os torna ainda mais fracos e sem liberdade.       
Deveríamos aproveitar o ambiente virtual para nos movimentar livremente e desenvolver coisas que somente com essa liberdade podemos fazer. Estar livre das opressões divinas no ambiente virtual não deve ser encarado como algo preocupante, pelo contrário, deve ser encaro como uma vitória. Criamos nosso próprio mundo e devemos nos virar em desenvolve-lo do nosso jeito, pois se Deus não tem acesso a internet, os valores morais oriundos da divindade também não se aplicam lá. Quando falamos em moral e ética no ambiente virtual, precisamos pensar em uma nova moral, algo totalmente específico. Visto que Deus não vive lá, tudo precisa ser reavaliado. Mas ainda temos muito caminho até lá, pois os homens ainda não se deram conta desse fato.
Mas Deus não pode estar cego frente as coisas que ocorrem na internet, pois ele é onipotente, onipresente, criou o céus a terra e tudo mais! Tal com para Epicuro Deus está em outra dimensão trocando átomos com universos no qual não possui nenhuma relação, o mesmo deve ocorrer quanto ralação entre o divino e o virtual. O eu virtual é o indivíduo elevado ao seu nível máximo, isso significa dizer que através dele podemos simular a experiência de sermos o super-homem de Nietsche num universo livre da opressão divina. Enquanto os simples homens ficarem por ia, navegando na internet sem perceberem isso, o @Zaratustra está postando como um louco em seu Twitter, Orkut e Facebook: “Procuro Deus! Procuro Deus! Ter-se-á se perdido como uma criança?(...) Pra onde foi Deus?” (ZILLES, p.166).
                                         Fig.5.: Deus navegando na internet.



Conclusão

É chegada a hora de darmos mais atenção filosófica ao fenômeno da internet, pois a vida de muitos e a existência de todos parecem estarem envolvidas com isso. Ficamos tanto tempo on-line que nossas vidas e sociedades estão aos poucos se virtualizando. Surge então o eu virtual, o individuo elevado ao seu grau máximo. Em suma esse eu virtual é a simulação do super-homem de Nietzsche vivendo em universo livre da opressão divina. Algo que não tem nada de glorioso, pelo contrário, é tão enganador e decadente quanto Nietzsche julgava ser a vida religiosa. Talvez essa seja justamente a decadência do ser humano no Séc. XXI, algo que os filósofos terão que discutir.
            Ainda pretendo me aprofundar nos problemas aqui propostos, mas estou sem tempo... Tenho que enviar alguns e-mails, atualizar meu blog, postar no Twitter e conferir meus orkuts e facebooks.

Referências

ULLMAN, Reinholdo Aloysio. Epicuro: O filosofo da alegria. 3 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006


ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. 5 ed. São Paulo: Paulus, 2004





http://wn.com/Show_da_F%C3%A9 acessado em 31/05/2011.







[1] Minha livre interpretação bem resumida deste fantástico filósofo.
[2] Dou como exemplo aqui a igreja católica, mas o mesmo vale para outras religiões que em pleno séc. XXI ainda tentam aumentar seu poder e marketing share através de ocultismos irracionais.